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19 de Dezembro de 2018

Mensagem de Natal e Ano Novo, do Embaixador Jorge Cabral


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Em 1500, Pero Vaz de Caminha observava: “(…) A terra em si é de muito bons ares, assim frios e temperados, como os de Entre Doiro e Minho, porque neste tempo de agora os achávamos como os de lá. Águas são muitas; infindas. E em tal maneira é graciosa que, querendo-a aproveitar, dar-se-á nela tudo, por bem das águas que tem.” Quase cinco séculos depois, Agustina Bessa-Luis confessaria: “Nada se compara à beleza do Brasil, a sua associação de flutuações da alma vegetal e animal. Andei por muitos lugares, mas nada se comparou para mim às palmeiras imperiais com o ligeiro movimento das copas altíssimas”.

É bom de ver, por ambos os trechos, que o encantamento dos portugueses pela Terra Brasilis é intenso e longevo. Depois de mais de 300 anos de união filial, Portugal e Brasil continuaram, após a Independência, a manter vínculos humanos, económicos e políticos incomparáveis. Prova disso é que, durante o século XIX, os portugueses foram os mais numerosos imigrantes para este país e os que mais influíram na moldagem do seu perfil étnico. Curioso notar, aliás, que o pai de Agustina, Arthur Teixeira de Bessa, é parte dessa mesma vaga: veio em 1894, com apenas 12 anos, para o Rio de Janeiro, estabelecendo-se na Rua do Ouvidor. Entre “lojas com sobrado e os armazéns com balcões de madeira clara”, o pequeno Arthur acumulou “fortuna considerável”, ao ponto de ter chegado a pertencer-lhe boa parte daquela mesma Rua do Ouvidor. Voltaria à Pátria Lusa vinte e cinco anos mais tarde e pelas recordações do pai, Agustina dirá, muitas décadas depois, ter sido “criada na memória do Brasil”. Na verdade, todos nós, portugueses, o somos, de uma forma ou de outra. Somos criados na memória desta “terra-filha” que se tornou “país-irmão”.

Durante boa parte do século XX, Portugal e o Brasil poderão ter tornado os seus laços mais rarefeitos. Mas desde finais do século passado que vêm desenvolvendo uma parceira estratégica, da qual a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a CPLP, nascida em 1996, é um dos frutos mais promissores. É, sobretudo, com sincero regozijo que vejo – muito para além do plano político e institucional – os nossos dois povos, as nossas gentes, a redescobrirem-se, a visitarem-se mais do que nunca, a saudarem-se com emoção e com vontade de compartilhar uma herança que do passado traz lições e energias capazes de a todos beneficiar.

Para desenhar essa nova parceria de relacionamento transatlântico, destaco, naturalmente, a enorme relevância da vastíssima Comunidade Portuguesa e luso-brasileira espalhada por todo o Brasil. Por outro lado, é bom notar, os brasileiros representam já a maior comunidade estrangeira a viver em Portugal.

É neste espírito de (re)encontro que venho junto de vós para celebrar mais uma quadra natalícia. Celebremos também, em conjunto, portugueses e brasileiros, este ano, o bicentenário da aclamação, aqui no Rio de Janeiro, de D. João VI, como monarca do Rei Unido de Portugal, do Brasil e dos Algarves (aliás, convido toda a comunidade a visitar a magnífica exposição “O retrato do Rei”, que estará patente no Museu Histórico Nacional, do Rio de Janeiro, até 17 de fevereiro de 2019); e, no próximo, os 500 anos da Viagem de Circum-navegação de Fernão de Magalhães que, a 13 de dezembro de 1519, aportou na Baía de Guanabara, a caminho das terras do sul.

Desejo, por fim, com sincera amizade, a todos vós e respetivas famílias, um muito feliz Natal e um Novo Ano que nos traga mais sucessos, mais razões para comemorarmos, sempre em conjunto. Nas boas-vindas a 2019, adaptemos o festivo título de João Ubaldo Ribeiro e, acompanhados de um cálice de Porto ou de uma Cachaça mineira, digamos alto: “Viva o Povo Luso-Brasileiro!”

Jorge Cabral

Embaixador de Portugal no Brasil